Um dia, quem sabe, ela, que também gostava de bichos, apareça numa alameda do zôo, sorridente, tal como agora está no retrato sobre a mesa. Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la. Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame de mil nadas, que dilaceravam o coração. Então, de todo amor não terminado seremos pagos em inumeráveis noites de estrelas. Ressuscita-me, nem que seja só porque te esperava como um poeta, repelindo o absurdo quotidiano! Ressuscita-me, nem que seja só por isso! Ressuscita-me! Quero viver até o fim o que me cabe! Para que o amor não seja mais escravo de casamentos, concupiscência, salários. Para que, maldizendo os leitos, saltando dos coxins, o amor se vá pelo universo inteiro. Para que o dia, que o sofrimento degrada, não vos seja chorado, mendigado. E que, ao primeiro apelo: - Camaradas! Atenta se volte a terra inteira. Para viver livre dos nichos das casas. Para que doravante a família seja o pai, pelo menos o Universo; a mãe, pelo menos a Terra.
Somos diferentes, tu e eu. Tens forma e graça e a sabedoria de só saber crescer até dar pé. Eu não sei onde quero chegar e só sirvo para uma coisa - que não sei qual é! És de outra pipa e eu de um cripto. Tu,lipa Eu,calipto.
Gostas de um som tempestade roque lenha muito heavy Prefiro o barroco italiano e dos alemães o mais leve. És vidrada no Lobão eu sou mais albônico. Tu,fão. Eu,fônico.
És suculenta e selvagem como uma fruta do trópico Eu já sequei e me resignei como um socialista utópico. Tu não tens nada de mim eu não tenho nada teu. Tu,piniquim. Eu,ropeu.
Gostas daquelas festas que começam mal e terminam pior. Gosto de graves rituais em que sou pertinente e, ao mesmo tempo, o prior. Tu és um corpo e eu um vulto, és uma miss, eu um místico. Tu,multo. Eu,carístico.
És colorida, um pouco aérea, e só pensas em ti. Sou meio cinzento, algo rasteiro, e só penso em Pi. Somos cada um de um pano uma sã e o outro insano. Tu,cano. Eu,clidiano.
Dizes na cara o que te vem a cabeça com coragem e ânimo. Hesito entre duas palavras, escolho uma terceira e no fim digo o sinônimo. Tu não temes o engano enquanto eu cismo. Tu,tano. Eu,femismo.
Disfarça, tem gente olhando… Uns, olham pro alto, cometas, luas, galáxias. Outros, olham de bando, lunetas, luares, sintaxes. De frente ou de lado, sempre tem gente olhando, olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo, procurando algum vestígio do tempo que a gente acha, em busca do espaço perdido Raros olham para dentro, já que dentro não tem nada. Apenas um peso imenso, a alma, esse conto de fada.
No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto
a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso, maldito seja que olhas pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais
mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas.
Vislumbrei minha vida como um fio percorrendo os lugares por onde vivi, por onde me criei e ne (trans)formei no que sou hoje.
N'algumas partes deram-se nós, apertados, quase cegos, dos quais foram difícil me desvencilhar e mesmo que tenha sido possível desfazer o nó, ainda sobraram as marcas, tais como cicatrizes, sempre me lembrando de que ainda estão lá. N'outras partes o laço se fez tão frouxo que ao me desvencilhar quase me esqueço e acabo por perder os detalhes e a intensidade vivida... Mostra-se na memória como um feixe de luz do sol numa manhã fria de outono: só nos lembramos que aquece, quando nos aproximamos dele... Feita de nós e de laços a vida da gente é como um fio, que pode ser cortado a qualquer momento, revelenado sua fragilidade; sua forma poeticamente fugaz. Hoje, existem nós dos quais não consigo me desvencilhar e que ainda que fosse necessário faze-lo não conseguria, pois ainda que quisesse, não queriria... Ao passo que os nós de hoje só amanhã se volverão em cicatrizes ou em feixes de luz em manhãs frias de outono. De resto, nada mais são que parte do fio da vida, do fio da meada vivida, que, ao fim se tornarão parte de mim.
Bastaria um olhar que disse "sim eu também quero" e eu seria dele. E o seria não no sentido de prorpiedade privada, mas no sentido de me entregar de corpo e alma, de verdade, sem hesitar. O seria, por que no fundo não quero ser de mais ninguém, não quero ser de outro e apesar disso, não acho que seja amor.
Amor não é querer estar, mas estar sem querer, sem saber, sem entender... Se entra razão já muda tudo, já vira plano, vira caminho a ser pensado e percorrido conscientemente, vira regra, burocratiza... E o amor não é burocrático. Não exige que entremos numa fila e preenchamos um cadastro com nossos dados pessoais para procurar um par perfeito, que goste das mesmas músicas, use os mesmo tipos de roupa, de sapato, tenha os mesmos assuntos e todas aquelas coisas chatas que a burocracia adora.
O amor não... Ele chega de onde menos se espera, ou até de onde se duvida que venha. Vai chegando, se instalando, por que ele é espaçoso e com ele não tem tempo ruim: se a coisa não é do jeito que ele planejava, tudo bem. Ele muda o roteiro, adapta no que dá, divide o que resta, soma o que sobra e ama, oras! Não há segredo!
As pessoas definitivamente complicam o amor!
Mesmo assim, eu ainda seria dele se um olhar dissesse "também quero", mas olhares, mesmo dizendo calam e nem sempre sabemos o que querem dizer. E se esse olhar não disser o que quero ouvir, vou aprender a amar diferente...
Até porque, se não é amor, é melhor deixar pra lá... Amor só se aprende amando... Não quero burocratizar...
Assisti Che hoje. Fui ao cinema sozinha e só ouvi a chuva forte que caiu do lado de fora. Dentro de mim [e do cinema] não chovia. Imaginei-me por diversas vezes no lugar daquelas mulheres, guerrilheiras que lutavam pelo ideal que criam. Será que se estivesse lá seria como elas? Quiçá...(!) É de se admirar a força daquelas pessoas, e de fato homens que acreditam na humanidade e a amam não podem deixá-la morrer, como deixamos todos os dias. Ernesto (Che) Guevara, o argentino, médico e um dos líderes da revolução cubana, assim como seus companheiros devem por isso ser admirados e respeitados por aqueles que têm ideais libertários e que acreditam na humanidade verdadeiramente livre. O que mais me tocou no filme foi a percepção do grande ser humano que Che foi, não só comprometido com a causa na qual acreditava, como com as pessoas nela envolvida. Uma pessoa com um caráter íntegro, humano... Acho que acima de tudo, o filme é uma grande homenagem aos 50 anos da revolução que trouxe no fim da déc. 50 um faixo de luz e de esperança para os homens revolucionários da América Latina.
Andar de metrô na cidade de São Paulo,dependendo do dia e horário não é das coisas mais agradáveis do mundo, mas hoje, são 10h 40min da manhã de um sábado, portanto a situação é menos desgastante do que o normal. Estive pensando, neste momento de interiorização ao escrever este texto no metrô, em como, quanto mais olho ao meu redor nos transportes (que agora em sua maioria tem TV!) e nas ruas dessa agitada metrópole - onde vivo e vivi toda a minha vida até agora - , mais eu fico assustada em perceber no que nos transformamos, nós, oh seres humanos!!! São tantos anúncios que compelem o indivíduo a comprar o celular "x", escolher a faculdade "y", escolher o melhor curso de inglês, alavancar sua carreira. Os condutores do trem dizem tantos avisos, tantas regras para construção do bom comportamento, para nos lembrar de que devemos respeitar os assentos preferenciais, que devemos respeitar os que entram, os que saem, os que passam ao nosso lado... E tudo isso deve ser lembrado diariamente e soa aos ouvidos [e olhos] de alguns como regras que devem ser sistematicamente seguidas, muitas vezes sem nem o breve questionamento de como estamos sendo tratados dentro desta sociedade. No vagão, as conversas frenéticas se confundem com a voz do homem que pede dinheiro para ajudar a família e com a do vendedor de balas. O rapaz sentado no banco preferencial liga o celular e começa a ouvir um funk em volume ensurdecedor. E me basta um empurrãomais ou menos brusco da pessoa ao meu lado para que toda a minha humanidade saia pelo dedão do pé e eu passe a esbravejar como os outros e saia do trem tendo a certeza de que ela estragou meu dia. Reparo nas pessoas. Suas formas embrutecidas de lidar com o outro, sem reconhecer neste outro seu semelhante. Sua forma padronizada de vestir, de andar, de se portar. Em cada grupo de 10 mulheres, por exemplo, noto que de 7 a 8 (se não as 10) estão com o mesmo tipo de de bolsa, o mesmo modelo de sapatilha (os novos modelos da Melissa estão no último grito da moda), as mesmas estampas nas roupas (listrado, xadrez, bolinhas, flores e formas geométricas e muitas, muitas cores). Todos tornam-se iguais, tentando ser diferentes.
Os valores sociais do capitalismo, que prezam o indivíduo isolado, enquanto este nada mais é do que a síntese de uma formação social específica, acaba por igualar o diferente na forma, no estilo, na maneira de viver. A sociedade capitalista distancia as pessoas, brutaliza-as e faz com que busquem a diferença estética e a padronização comportamental.
O homem urbano, ou melhor, o homem formado pela sociedade capitalista, já não consegue enxergar a semelhança em seu semelhante, já não sabe mais distinguir em si mesmo as qualidades que o tornam humano. Já não consegue respeitar, pois não é respeitado.
Este homem que o trabalho [o que se entende por trabalho na concepção atual] oprime, a família e as instituições religiosas e sociais agrilhoa, que as normas tolhe, que o poder corrompe, que o dinheiro move, está, por isso tudo totalmente desumanizado.