sábado, 19 de fevereiro de 2011

Régia

E mais uma vez me pego pensando nas relações humanas. Acho que elas são frágeis justamente por que o ser humano é constantemente fragilizado por essa sociedade embrutecedora que cotidianamente nos forja. Mas desta vez, limito-me a narrar os fatos, não garanto que a intensidade transmitida aqui seja a mesma vivida e na verdade, certamente não será.

Ela tinha olhos brilhantes. Não soube dizer assim que a vi em que consistia aquele brilho, mas eles se impunham e não havia como não notar aquele brilho, aquela imposição. Se fazia notar, mais pela forte presença do que pela beleza física. Era bonita de fato, mas não do tipo que chamaria atenção fosse onde fosse. Seu porte ao mesmo tempo que se colocava, se escondia atrás de uma postura curvada e sempre com os braços cruzados sobre a barriga, o que lhe dava um aspecto dúbio entre a imposição e o medo da exposição.

Não sei se por obra do acaso, ou do-que-quer-que-seja que rege a vida das pessoas, para os que, como ela, creem veementemente nisso, nossos caminhos se cruzaram.

Ela chegou de fininho, mas com aquela presença marcante e se impôs, "posso?" [participar da conversa], disse, e nos apresentamos. Quando menos notei estávamos sós, eu e seus olhos brilhantes grudados sobre mim.

Aparentava ter aproximadamente 27 anos, mas não, era mais jovem e seu olhar mostrava sê-lo. Não consegui por muito tempo encará-la. Parecia madura, severa e forte, extremamente forte e de fato o era. Não é fácil imaginar como poderia alguém tão jovem viver uma vida tão dura e oprimida, tendo de sustentar sua prole que dependia quase que exclusivamente de sua existência.

Senti-me impotente por nada poder fazer para tirá-la das inúmeras situações precárias as quais está submetida, porém, em todo caso pude notar que naquele brilho não havia só a dor, ali residia também a esperança de transformar sua existência em algo maior, de superar todo aquele sofrimento e suspirar aliviada tendo encontrado enfim a felicidade.

Aquela esperança nos olhos jovens e sofridos daquela moça me marcou. Assim como me marcaram profundamente, como nunca antes em toda a minha vida, seus olhos, sua história e toda a força que carregava dentro dela e que transbordava pelos olhos e lábios ao ouví-la falar.

Voltei para casa com o pensamento fixo nela, na sua vida compartilhada com uma desconhecida que teve a honra de ser a escolhida para tal feito. Senti-me comovida por poder ouvir aquele desabafo contido e de poder tocar sua mão e oferecer-lhe ajuda, ainda que fosse apenas aquela da escuta.

Não sei por que meu caminho cruzou-se com o dessa moça hoje, o que sei é que ela me tocou de uma maneira e numa intensidade que nuca havia me ocorrido outrora, sobretudo com um desconhecido. É que a vida dela é dura, as relações que a cercam são frágeis e ela muito jovem para suportar o peso da vida real sozinha. E calada.

2 comentários:

Poetadaterra disse...

Ola sou um Campones assentado pelo MST, e escrevo poesias...
Á VOCÊ MULHER!

Quero nesta data homenagear todas as mulheres,
Trabalhadora que a submissão não aceita.
Mulher que sonha, têm ideais e projetos pra sociedade.
Marco da luta travada pelas mulheres de consciência.
A aquela mulher que perdeu o filho,
Estendo minhas condolências.
A você mulher branca ou ruiva,
Índia, negra e mulata.
Mulher nova, madura ou idosa,
Alta, baixa, gorda e a magra.
Mulher solteira, amasiada ou casada,
Órfã, viúva, independente e a separada.
Mulher brasileira, latina ou de outro continente.
Determinada, ousada, torturada e a alienada.
Mulher aguerrida, inquilina ou faxineira,
Cigana, agricultora, gari e a enfermeira.
Mulher policial, operaria ou lavadeira,
Secretaria, desempregada, frentista e caminhoneira.
Mulher educadora, vendedora ou freira,
Cantora, aprendiz, comunicadora e padeira.
Mulher balconista, esportista ou costureira,
Motorista, pedestre e passageira.
Mulher liberta, dominada ou dependente,
Perfeita, mutilada e a deficiente.
Mulher que dota filhos, babá ou amamenta,
Fértil, grávida, a estéril e a enteada.
Mulher, mulher, mãe, filha ou avó,
Doente, alcoólatra, presa e a drogada.
Mulher anônima, calada, pacifica ou indignada,
Excluída, que luta, questiona e a acomodada.
Mulher que defende a vida e até doa a vida pela causa,
Que batalha em tribunas, ruas, praças, em juízo ou armada.
Mulher que passa fome, na miséria e a explorada,
Sem terra, comprometida, violentada e a favelada.
Mulher trabalhadora informal, empregada ou aposentada,
Sabia, a estudante, analfabeta, intelectual e a desorientada.
Mulher que sofre, camponesa, urbana ou descriminada,
Que ama, que odeia, ignorante, desequilibrada e a matada.
Mulher sem crenças, a religiosa, prostituta e a apaixonada.
Que ri, expõe seus sentimentos e chora emocionada.
Mulher cautelosa, espontânea, imediatista ou amedrontada.
Que ganha a vida, que vive e da vida procriada.
A mulher que acredita no possível, de uma nova alvorada,
És sempre mulher, no dia da mulher e em toda a jornada.
Parabéns, parabéns, parabéns a toda a mulherada...

http://poetadaterra.blogspot.com/
Clairton Buffon, 08 de Março de 2010

Anônimo disse...

lindo lu....mto lindo...tenho a sensação de saber de quem falaste, mas não precisa ser dito... apenas compartilhado e sentido... um beijo querida..
gleice.

visitantes