sábado, 27 de agosto de 2011

Todos estão surdos?

A crença na mudança da realidade é um dos pilares que levam muitas pessoas a escolher cursar uma licenciatura, sobretudo na área de humanas e esta noção é tão amplamente infundida nos movimentos estudantis que por muitas vezes os estudantes recém ingressos no mundo acadêmico deixam-se ludibriar por discursos retoricamente ilusórios que prometem a revolução partindo do seu universo particular.

Explico. Ao se tomar contato com um mundo no qual teoria e prática podem ser aplicadas e discutidas como num laboratório – pois acredito que seja essa a real função do movimento estudantil – verificam-se inúmeros atores ligados a diversas correntes político-partidárias que estão ali apenas à espreita de possíveis novos militantes ultra-engajados que possam servir de braços e cérebros (e às vezes mais braços do que cérebros) na “luta contra o capital” e os calouros nesse sentido são um prato cheio.

Eu até compreendo tal prática visto que quem atua numa determinada organização o faz por acreditar em seus preceitos, fundamentos teóricos e práticas políticas e por isso tenda a achar que quanto mais pessoas para compor o quadro de militantes, tanto melhor.

No entanto, isso acaba por levar o movimento estudantil à uma espécie de “engessamento”, posto que as disputas de interesses entre as organizações por vezes suplantam a organização autônoma e orgânica que os estudantes poderiam assumir junto com as organizações e não subordinados à elas.

É isso que tenho visto acontecer, nos poucos momentos em que tenho estado presente na Fundação Santo André. E quem me conhece de longa data há de pensar: você ainda está batendo nessa mesma tecla?! Sim, pois as coisas não mudam. A realidade da Fundação vem se alterando – e ela vem de alterando mesmo, o Cacalano não é o Odair, definitivamente não é – e as práticas do movimento estudantil continuam exatamente as mesmas.

E isso não nasceu hoje, é claro. Desde 2007 tenho acompanhado de perto os avanços e retrocessos do movimento estudantil naquele Centro Universitário e para mim – a menos que esteja louca – este é um momento importante na luta, mas que vem sendo conduzido de maneira descompassada, atabalhoada, fluída demais para que se alcance a tão esperada "massificação" do movimento.

Acredito que um organismo como o Diretório Acadêmico (D.A) deva ter sim o papel organizativo num primeiro momento – esteja nele a gestão que estiver – e que a organicidade que o movimento só adquire com tempo e corpo consolidado deve sim incorporar as discussões e superar a organização do D.A, mas que isso deva acontecer de maneira natural e não imposta pelas correntes que há pouco lutavam por fazer parte desta instituição e que agora tentam a deslegitimar a força.

É evidente, que os "ataques" da reitoria vêm se mostrando cada vez mais incisivos e que por isso o momento tenda a se desenhar de maneira mais ampla quanto à organização estudantil. É importante que neste momento se tente uma aproximação com os setores da universidade que não compreendem bandeira de luta nenhuma pelo grito. Sim, pois existem esses setores e o que se precisa fazer é aprender a dialogar com eles nos momentos de forte recessão, para que a adesão seja orgânica em momentos como os que se desenrola agora, nos quais é necessário corpo para o movimento.

Mas algumas organizações que giram em torno do movimento estudantil parecem que além de disputar espaço e corpo organizativo e militante entre os estudantes não conseguem superar algumas limitações e não percebem que este não é um momento de força do movimento. Não é. E que "é necessário que seja" [um movimento forte, coeso, consolidado] é radicalmente diferente de "ser de fato" [um movimento forte, coeso, consolidado]. O momento agora é de construção desse diálogo com os outros estudantes menos combativos, mas que também serão afetados com os ataques violentos da reitoria. E me dirão: mas isso demora muito... Eu sei. É o chamado “trabalho de base” e neste momento é fundamental.

E ai, novamente o que se vê é o mesmo atabalhoamento de antes, as batucadas nos prédios de administração, economia e engenharia, as gritarias (dessa vez com agressões físicas no seio do próprio movimento! Onde chegamos?!) e o semblante de descrédito e desprezo dos estudantes céticos que acreditam que 200 pessoas (e olha que eu estou sendo generosa) não vão conseguir barrar esse aumento. E dificilmente conseguirão. E me desculpem os otimistas, creio que devemos olhar com clareza para a realidade e não ficar fazendo inúmeras projeções fantasiosas. Acho que é muito digno e coerente percebemos que erramos e tentar novamente, de outra forma. Sem problema algum. A autocrítica – e uma autocrítica séria – deve ser feita no sentido de tentar incorporar mais pessoas à luta.

Mas tudo que eu consigo ver são picuinhas partidárias que engessam, cansam e esfacelam o movimento, além de não dar espaço e abertura para outros estudantes divergente se posicionarem... Não dá mais para ficar infinitamente cometendo os mesmos erros, repetindo as mesmas táticas, e esvaziando cada vez mais o movimento por causa de brios e egos feridos ou agudizados. O que é necessário que seja discutido acaba por cair no esquecimento, devido às retóricas bem construídas, os discursos inflamados que ao fim e ao cabo agitam as massas e as impedem de pensar sobre o que está diante de seus olhos: uma assembléia esvaziada, um movimento desarticulado, no qual não há organização nem organicidade, apenas um aglomerado de pessoas gritando exaustivamente palavras de ordem vazias e quase sem fundamento.

E assim, a crença insistente na alteração da realidade é mudada em uma série de equívocos que não dão foco para o movimento, nem sustentação – numérica e teórica – para a luta e em certo sentido acaba por virar a "festa dos estudantes engajados e mal compreendidos pelos outros setores da universidade", eufóricos e sem camisa cantanto vitórias inexistentes. Tais como:

- “o movimento barrou a polícia pela enorme força e quantidade de pessoas”. Eu enxergo: a polícia sabia que não resistiríamos por muito tempo e se insistíssemos ela teria reprimido.

- “a reitoria tremeu na base”. Acho que há controvérsias. Não havia ninguém lá, pra começo de conversa e depois, a reitoria está se cercando e estrategicamente colocando estudante contra estudante. Eles também estavam lá quando da derrubada de um reitor e por isso sabem bem como se defender, como disse nosso colega Rock de C. Sociais. E mais uma vez desculpem-me pelo realismo.

Em suma, atitudes como as que presenciei na última sexta-feira (26/08) acabam por desmoralizar o movimento aos olhos da maioria dos estudantes que "concordam com a causa, mas preferem manterem-se de fora". Ora, será que o problema de fundo está nesses estudantes ou na forma como os trabalhos estão sendo encaminhados? Onde fica a autocrítica dessas pessoas que ensandecidas gritam sem ver os olhos assustados dos seus pares ao seu redor?


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